Sacolinhas plásticas? Não, muito obrigado!

sábado, 19 de janeiro de 2008

Recordar e Deleitar


Me deparei com este poema de Guta Chaves. Na verdade, trata-se de uma metalinguagem do poema Canção do Exílio de Gonçalves Dias . Ou seja, quando você escreve algo usando um texto já existente como caminho. Por exemplo: um filme dentro de um filme, um poema dentro de outro poema. Como neste caso. Eu gostei.


Canção do Exílio

"Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar — sozinho, à noite —
Mais prazer encontro eu lá;

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem quinda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá."
Gonçalves Dias



Poema em metalinguagem

Minha terra tem palmeiras e tem sabiá
Mas tem também mais frutas
Jaboticaba, goiaba, maracujá
Mas a gente fina daqui
Acha très chique usar o cassis de lá

Minha terra tem mungunzá, guaraná, vatapá
Boi-bumbá, iemanjá e morena que sabe sambar
Mas a gente chique daqui
Insiste em importar a fisális e poivre rose
Que também há por cá

Minha terra tem Carmem Miranda
Que fez sucesso por lá
Em cismar sozinha à noite
Menos sentido encontro eu lá

Não permita Deus que eu morra
Sem que eu veja nas mesas de linho,
Como alta gastronomia: tucupi, açaí, pequi
Minha terra tem riquezas que não usamos cá
E só nos damos conta quando um bacana elogia por lá
Guta Chaves


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